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Células HeLa: Uma breve história sobre as células imortais

 Nem todas as células são iguais. Elas são divididas em diversas classes de acordo com suas funções e características. As células normais e as células cancerígenas são diferentes principalmente pela forma do seu controle de crescimento. As células normais sofrem os efeitos do envelhecimento com o passar do tempo, fenômeno conhecido como senescência celular. As células normais são capazes de fazer novas células de forma rigorosamente controlada por diversos mecanismos e processos biológicos. Mas o que isso significa? Significa que, eventualmente, as células serão incapazes de se replicar e morrerão.

Células HeLa crescidas em cultura e coradas com anticorpo para tubulina (verde), anticorpo para Ki-67 (vermelho) e o corante azul de ligação ao DNA, DAPI. Preparação, anticorpos e imagem por EnCor Biotechnology.

 

Nós chamamos esse processo de morte celular programada (MCP), apoptose ou mesmo de suicídio celular. É um processo natural de muitas células, variando conforme o tipo de células. Em laboratório, uma célula cultivada costuma morrer após 50 divisões celulares. Mas e as células cancerígenas?

Essas células apresentam mutações que permitem seu crescimento descontrolado, burlando os mecanismos de controle e levando a uma replicação continuada. Isso fará essas células com DNA modificado pela mutação continue se multiplicando.

É isso que acontece com as células HeLa. Sob condições ideais, elas formam o que é chamado de linhagem celular contínua, se dividindo indefinidamente e, por isso, sendo conhecidas como as células imortais. Como as células da HeLa não sofrem MCP e são bastante resistentes, elas acabam por se replicar de maneira anormalmente rápida. Sendo assim, existem bilhões de células HeLa espalhadas por laboratórios de todo mundo.

Mas o que significa HeLa? Essa é uma sigla para Henrietta Lacks, uma mulher negra que viveu nos Estados Unidos entre os anos de 1920 e 1950.  O impacto de conseguir extrair células imortais para a ciência foram incríveis, porém nem Lacks, nem sua família souberam da importância de suas células ou, sequer, autorizaram essa retirada.

No livro A vida imortal de Henrietta Lacks, a jornalista Rebecca Skloot conta logo no primeiro capitulo a tocante história de como se tratou o exame que levou ao diagnóstico do tumor de Henrrieta, na qual ocorreu na ala para pacientes “de cor”. Apesar de antiético retirar material biológico dos pacientes sem que os mesmos saibam para pesquisa nos dias de hoje, antigamente isso era considerado justo, sendo uma forma de retribuição para o tratamento gratuito recebido, nos informa Rebecca.


 O livro de Rebecca nos toca ao mostrar toda a vida de Henrietta, que teve dois pedaços do colo do seu útero removidos antes mesmo do início da radioterapia para tratar o câncer em um hospital de bastante prestigio. A velocidade na qual as células se multiplicavam em condições ideais chamaram a atenção da equipe do hospital, que distribuiu as células HeLa para cientistas interessados, possibilitando estudos que ajudaram a entender as infecções por vírus como HIV e sarampo, a testar produtos cosméticos e farmacêuticos e ainda estabelecer e padronizar técnicas seminais de cultura de células.

As células ajudaram ainda no teste de eficácia e seguridade da vacina contra poliomielite, ao usar a linhagem HeLa para testes de neutralização do vírus. Antes usava células de macaco, alternativa mais cara na época. As células foram produzidas aos trilhões por semana em uma fábrica sem fins lucrativos em Tuskegee, sendo enviadas para vários centros ao redor do mundo, para o teste das vacinas. Isso mostrou que a vacina foi um sucesso. Com o aumento da demanda, nascia a multibilionária indústria que vende materiais biológicos.

As células HeLa trouxeram incríveis benefícios para a ciência e suas aplicações na área da saúde.  Mas nem tudo foram flores. Rebecca conta ainda o triste lado envolvendo o tratamento dado a pessoas negras daquela época. Enquanto fábricas faziam sucesso com a venda de células HeLa, negros portadores de sífilis sofriam com experimentos horríveis em Tuskegee, que acontecia na mesma época e local. Hospitais sequestravam negros para pesquisas a medida que eles iam migrando do sul para o norte dos EUA.

O livro de Rebecca Skloot toma todo cuidado de mostrar o ponto de vista da família de Henrietta, do que acontecia no mesmo período em que suas células foram descobertas, além da sua história enquanto criança. O livro é um prato cheio para os amantes de história e ciência, nos mostrando a dura realidade por trás de uma das células que é chamada de Imortal.

Acesse o primeiro capítulo grátis pela Companhia das Letras aqui.

Referências: 

1. Kasvi

 

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